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Plantio de 8 mil mudas marca segunda fase da restauração ecológica na bacia do Miringuava

05 jan 2023

Movimento Viva Água avança na conservação e recuperação de áreas naturais em pequenas propriedades rurais de São José dos Pinhais (PR)

O plantio de 8 mil mudas nativas em pequenas propriedades rurais de São José dos Pinhais (PR) marca uma nova fase da conservação e recuperação de áreas de nascentes, margens de rios e seus afluentes na Bacia do Rio Miringuava, que abastece 500 mil pessoas na Grande Curitiba. A iniciativa do movimento Viva Água tem o objetivo de contribuir com a segurança hídrica, amenizar impactos gerados por períodos de estiagem e chuva excessiva e também deve aumentar a renda de agricultores familiares por meio da diversificação da produção, criação de novas oportunidades de negócios e aumento da resiliência e produtividade nas propriedades. O plantio, que deve ser concluído durante o mês de janeiro, pretende recuperar dez hectares de áreas degradadas em propriedades rurais na região, contribuindo ainda para a conservação da biodiversidade.

“Sabemos que o solo coberto com vegetação funciona como uma esponja, que absorve a água e vai liberando-a aos poucos, o que garante a disponibilidade desse recurso por mais tempo para todos. O solo bem cuidado também funciona como um filtro que reduz a quantidade de sedimentos que chega ao rio, deixando a água mais limpa, reduzindo assim os custos com o tratamento da água. Além disso, as espécies nativas podem gerar um complemento de renda muito interessante, possibilitando a comercialização de erva-mate, mel, entre outros produtos agroflorestais”, explica Anke Salzmann, gerente de projetos da Fundação Grupo Boticário, idealizadora do movimento Viva Água.

O plantio conduzido pela Iniciativa Verde e pela Sociedade Chauá vai inserir nas propriedades mais de 30 espécies típicas da Mata Atlântica, como canela-amarela, imbuia, angico, cedrinho, jabuticabeira, pinheiro-bravo, araçá-vermelho, aroeira-pimenteira, buriti, dentre outros. “Procuramos entender a realidade de cada produtor, a área disponível para a restauração e a melhor forma de integrar a floresta com o tipo de cultura existente. A partir desse diagnóstico, escolhemos os tipos de mudas nativas mais indicadas, os sistemas de plantio e a manutenção necessária”, explica Anke.

Em algumas áreas, os proprietários desejavam atrair a fauna, em outras formar um “pasto melitófito” para a criação de abelhas nativas sem ferrão ou da espécie apis. Há também projetos de sistemas agroflorestais voltados à produção de erva-mate e espécies frutíferas nativas. A primeira fase do projeto foi realizada em março de 2022 com o plantio de cerca de 1.600 mudas em uma propriedade-piloto. Além das mudas inseridas em áreas degradadas, a restauração contempla a inserção de espécies nativas para enriquecimento da biodiversidade em partes dos terrenos onde já existe vegetação. Após a conclusão do plantio, as propriedades rurais receberão manutenção pelos próximos dois anos.

Em outra frente, o Viva Água está desenvolvendo um mecanismo de compensação de emissões empresariais que envolve a aquisição de mudas, o plantio e a assistência de  manutenção  para os proprietários rurais participantes dos processos de restauração de áreas. Estudos estão em desenvolvimento para a projeção do estoque de carbono que as áreas recuperadas serão capazes de gerar a cada ano.

Estudos comprovam importância da vegetação

A conservação do solo e a preservação e recuperação da vegetação natural podem ampliar a disponibilidade hídrica na bacia do Rio Miringuava e gerar benefícios econômicos de R$ 71,5 milhões nos próximos 30 anos. As conclusões foram publicadas nos estudos compilados na publicação “Soluções Baseadas na Natureza e seu papel na promoção da resiliência climática, segurança hídrica e geração de benefícios econômicos”, lançada em setembro pelo movimento Viva Água, em parceria com o Projeto ProAdapta e a Sanepar.

Um dos estudos analisou a base histórica de disponibilidade hídrica em quatro bacias hidrográficas do Alto Iguaçu (Rio Pequeno, Rio Miringuava, Rio Palmital e cabeceiras do Rio Passaúna) para avaliar a importância da cobertura vegetal nativa para a captação e manutenção da água no solo. A análise, com dados entre 1985 e 2020, confirmou a hipótese de que bacias com vegetação mais preservada são capazes de manter um fluxo de água regular durante épocas de estiagem.

A análise demonstrou que, durante períodos mais secos, os rios localizados em bacias mais conservadas apresentaram uma redução de suas vazões mínimas entre 6% e 11%, enquanto na bacia com a menor cobertura de vegetação nativa, a redução média foi de 52%. Os achados indicam que o desmatamento das bacias causa alterações significativas nos regimes dos rios, o que compromete o abastecimento da população e o uso da água pela agricultura e indústria, entre outros setores.

O foco principal do estudo foi o Rio Miringuava, com simulação de dois cenários climáticos para os próximos 30 anos, um mais úmido e outro mais seco, considerando ainda as intervenções necessárias para a recuperação de áreas naturais estratégicas, que podem influenciar os serviços ecossistêmicos que a bacia presta, como o fornecimento de água.

Enquanto o cenário mais seco traz riscos para o abastecimento por conta da escassez de chuva, o cenário mais úmido, no qual ocorrerão chuvas mais intensas em um curto espaço de tempo, poderá agravar o carreamento de sedimentos e poluentes para os rios da bacia, afetando a qualidade da água disponível, além de provocar potenciais prejuízos com enchentes.

O estudo indica que o uso de diversas Soluções Baseadas na Natureza é capaz de aumentar de 2,2 milhões até 2,7 milhões de metros cúbicos por ano de água infiltrada no solo, além de reduzir de 49% a 56% o aporte de sedimentos nos rios e no reservatório do manancial, gerando redução dos custos no tratamento de água.

Retorno econômico

O segundo estudo que integra a publicação teve como objetivo analisar o custo-benefício das ações de adaptação à mudança do clima previstas pelo movimento Viva Água para a Bacia do Rio Miringuava. Considerando uma média entre os cenários de implementação das ações propostas pelo movimento, apontados pelo primeiro estudo, além das mudanças do clima, que preveem alterações no volume das chuvas, os benefícios provenientes das intervenções alcançam R$ 71,53 milhões em valor social presente líquido (VSPL), indicador usado para avaliar projetos de investimento, diante da contrapartida de R$ 29,09 milhões em custos para a implementação e manutenção das intervenções sugeridas pelo movimento.

“O resultado da análise de custo-benefício demonstra plena viabilidade econômica para a realização das intervenções planejadas pelo Viva Água. Os cálculos mostram que os investimentos proporcionam um retorno de 2,46 vezes mais benefícios para a sociedade do que os custos. Em outras palavras, a cada R$ 1,00 investido nas ações do movimento pode-se esperar a obtenção de R$ 2,46 em retorno aos diversos atores locais, às indústrias, à população do município de São José dos Pinhais e à sociedade como um todo”, salienta Luciana Alves, assessora técnica do Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ), instituição responsável pela implementação do Projeto ProAdapta.

As projeções dos benefícios estão distribuídas entre os serviços ecossistêmicos de retenção de sedimentos – que representam 21,6% do valor; os serviços de regulação hídrica (41,7%) e os serviços de captura de carbono (36,7%). Esse valor poderia ainda ser acrescido dos benefícios não quantificados e valorados dos serviços ecossistêmicos de retenção de nutrientes e de redução de erosão. Também não foram calculados ganhos possíveis com a melhoria da qualidade de ecossistemas aquáticos, ganhos para a biodiversidade, além de ganhos para fins de turismo e lazer pela menor turbidez da água.